• José de Oliveira Justo

O Velho Normal

Atualizado: 30 de dez. de 2021

O "velho normal" está voltando antes da hora e os negócios de viagens e acolhimento continuam como no tempo das diligências.



Até agora, pelo que entendi, as vendas no turismo continuam uma incógnita indecifrável de uma equação com mais de 30 variáveis e apenas duas ou três constantes. O beco é sem saída. Só precisamos achar alguma alternativa para o B2B, seja pelo B2C ou pelo C2C, ou por algum outro modelo sobre o qual o Yuval Harari ainda não se debruçou. Enquanto não sabemos nada achando que sabemos tudo, basta imitar o maior vendedor de livros do momento e dizer: “é questão de narrativa".


Segundo T.S. Eliot, “não se resolve um problema novo com uma velha solução” e agora, não vamos resolver o assalto das OTAs, somente vendendo direto, da mesma forma que não vamos resolver o problema do hotel, incomodando os aplicativos de aluguel. E muito menos, vamos substituir os 300 "motores de reserva" disponíveis no mercado, com mensagens carinhosas em uma rede fria, para atingir clientes que são quase avatares de tão distantes que estão de nossa realidade local.


Depois de ler bastante sobre como não podemos, não devemos ou não conseguiremos fazer isso ou aquilo (em miríades de veículos escritos, falados e imaginados, comandados por velhos, tão velhos quanto eu), começo a me identificar com o pensamento de alguns homens no passado quando uma nova tecnologia substituía uma antiga e o novo usuário queria continuar com o mesmo jeito de agir de anos. É como se o condutor da carruagem movida a cavalo, tentasse continuar conduzindo um carro, dando capim para o motor e calçando ferraduras nas rodas.


O que me dói é ver que o "velho normal" está voltando antes da hora e os negócios de viagens e acolhimento continuam como no tempo das diligências.


Uma das únicas atitudes notórias, foi o fato de a hotelaria ter reduzido os salários dos trabalhadores qualificados em mais de um terço do seu poder de compra e jogado a qualidade no canteiro de obras. Hoje, alguns garçons não sabem a diferença entre uma colher de pedreiro e uma espátula de bolo. E alguns gerentes que conheço de nome, endereço e preferencia da marca de cerveja, preferiram não voltar para a gravatinha e, ao invés de entregar a carteira de trabalho para se escravizar numa CLT baseada na Carta Del Lavoro de Mussolini, foram dirigir Uber e 99, que ganham mais. Mais liberdade e mais dinheiro.


Uma análise sociológica do que está ocorrendo em função do apagão de mão-de-obra qualificada na hotelaria de alguns polos, mostra que, de 2003 até 2014, os brazucas melhoraram de vida, criando como resultado o fato de, os com rendas médias de menos de 5 mil reais, terem podido comprar seus carrinhos e agora, com a crise que permitiu a redução unilateral dos salários, usando como desculpa a pandemia, fez com que o carrinho se transformasse em ferramenta de trabalho, permitindo que o “operário" da hotelaria pudesse se livrar do patrão (no sentido estrito de "pai-grande", como era o sistema semi-escravagista instalado no pós branqueamento da sociedade brasileira, no último quarto do século 19 e no inicio do século 20).


No mundo, sempre que ocorreram pandemias, houve evolução, assim, a peste de Justiniano (541-750) gerou o sentido de “tratamento de saúde", com a criação de hospitais (e assim, nasceu a catedral de Santa Sofia em Constantinopla). Na Peste Bubônica, quase mil anos depois (1346-1353), surgiu o conceito de saneamento como prevenção (e, de novo, na Constantinopla de nome novo, pois, agora era Istambul, surgiu a primeira grande cisterna de águas tratadas, que está lá até hoje para ser vista por turistas. E na velha Inglaterra, foi criada a primeira escola de medicina em "Val dos Bois”, mais conhecida como Oxford). Menos no Brasil, onde a peste está ocasionando um retrocesso mongólico (em relação ao que Gengis Cã fez com a China, fazendo-a retroceder mil anos em sua ciência e tecnologia).

A ganância e a mediocridade estão ganhando espaço e farão com que se extermine qualquer inovação produzida ou provocada por algum brazuca, jogando no colo dos gigantes globais, qualquer chance de inovação, ou progresso técnico.

Do ponto de vista social, voltamos para a miséria, os ricos, por enquanto, pararam de ir para Orlando, Nova Iorque e Paris e foram para Gramado. Isso gerou uma demanda artificial e uma diária média muito acima da realidade, que em novembro de um ano pandêmico de 2021, provocou a maior ocupação e a maior diária média da historia da cidade que nem os donos de hotéis, ou os donos de restaurantes conseguem explicar. A explicação por ser modesta, baseada no fechamento das fronteiras, não são aceitas pois, para quem não gosta de intelectuais ou estudiosos, o que não for dinheiro, vivo e feito, é coisa de intelectual, comunista ou homossexual. "Ou dos três juntos", como dizia o Chefe da Divisão de Inteligência do Império Britânico, na segunda guerra mundial, Stewart Graham Menzies, um aristocrata fascista convicto, quando quase entregou no colo dos nazistas, o resultado da guerra, só porque não gostava do matemático Alan Turing, o pai da ciência da computação e da inteligência artificial, o decifrador do “enigma”, a máquina encriptadora das comunicações dos alemães, que, como é público e notório inscrito na história real da humanidade, ostentava os três qualificativos.


Nestes tempos de vírus corados, voltando à vaca-fria, a maior pérola que eu ouvi de um dono de hotel de Gramado foi: “vamos torcer para a variante Omicron pegar pesado na Europa e nos Estados Unidos, pra que nós não percamos clientes para eles".


E agora? Como é que eu vou falar de e-marketplace, de up-selling, cross-selling ou qualificação, se a crueldade, a ganância e a frieza substituíram a sensibilidade, o bom sendo e a inteligência? Ser inteligente é sinal de ser comunista? (um grande amigo - ou ex-amigo - me disse que eu era inteligente e contemporizou: “uma pena que tu é comunista” (favor preservar o erro de português, pois, é assim que ele fala!). Ser pensante é sinal de homossexualidade? Outro amigo (ou também ex-amigo), me disse que “pensar é coisa de viado, o importante é fazer”. Isso não seria grave se o primeiro não fosse o maior empresário de uma comunidade interiorana e o segundo não fosse o prefeito de uma outra, pequena e bela cidade.


Como é que eu vou pensar em fazer algo que transforme, se eles estão apenas esperando que o Bill ou o Mark lhes presenteiem com o "mata-verso"?


Como bom "construtor de barcos”, tu não vais reclamar da largura da margem ou da força das águas. Vais remar contra a correnteza, pois, é a tua única opção. E é nisso que reside a esperança.

Aí, tu pode me dizer: “não estou conseguindo viver de esperança e o tempo está me cobrando a conta da insistência”.


"Desistir" não é um verbo que esteja escrito em negrito no dicionário dos “construtores de barcos”, como o egípcio Amon de Tebas, o fenício Joab de Tiro, ou os noruegueses Flóki Vilgerðarson e Thor Heirdall, ou o medianeirense Vadis da Silva.


Sem filosofia vã, só a esperança constrói a historia.


Mas, "¿Qué tiene que ver el dito con los pantalones?", como se dizia nas barrancas do outro lado do Rio Paraná?


Turismo é uma atividade que os "empreendedores de gabinete" pensam ser filosofia e os construtores de barco pensam ser uma atividade econômica e eu, “modéstia às favas”, definirei o turismo como um leque aberto onde cada palheta é uma coisa grandiosa e, todas juntas, produzem efeitos físicos energeticamente palpáveis e artisticamente belos. Ou, ao invés de ser negocio, profissão ou panaceia, é um sentimento. E a esperança, é a ultima que morre segundo o sambista carioca.

O E-MARKETPLACE por ti desenvolvido é algo que poderá ser a ferramenta que mudará aquele monte de conceitos vagos e errôneos de "B2Coisas", "Trades", “engines" e "machines". (Só precisará de algumas mexidinhas que só tu poderá fazer, mesmo que seja com a ajuda de alguns "malucos" que tu tem encontrado pelo meio do caminho e não tem percebido.)


Assim, se eu fosse um daqueles conselheiros americanos que cobram fortunas por conselhos te daria um conselho cientifico, cobrando apenas 1 real: "junte suas coisas e se mude para Palo Alto… E fique rico!”


* José de Oliveira Justo é Chanceler da Escola Básica de Hospitalidade

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